EM BUSCA DA QUESTÃO FUNDAMENTAL:
INTRODUÇÃO À TEORIA POLÍTICA
No
livro O guia do mochileiro das galáxias,
Douglas Adams usa a ficção científica e muita imaginação para fazer uma
hilariante crítica à sociedade, assim como toda boa comédia. A parte que mais
gosto é o momento em que uma sociedade antiga, em um planeta distante resolve
construir um supercomputador para que lhes dê a resposta sobre “a vida, o
universo e tudo o mais”. Depois de ficar milhares de anos processando, o supercomputador
dá uma resposta que acabou com todas as expectativas: “42”, e explicou que a
resposta é está mesma, sem dúvida alguma,
o problema é que eles não sabiam, exatamente, qual era a pergunta, a questão
fundamental sobre “a vida, o universo e tudo o mais”. Então começa a busca pela
tal Questão Fundamental, que só poderia ser dada por um computador ainda maior
que este primeiro.
Trazendo esta estória para nosso contexto, cabe a reflexão: Será que fazemos a pergunta certa para os eventos do nosso dia a dia, sobre a vida, o universo e tudo o mais? Acredito que não e, como no livro, ficamos procurando respostas para tudo fazendo perguntas erradas ou incompletas. O que Douglas Adams nos ensina com esta anedota é que mais importante do que ter respostas é ter boas perguntas.
Vamos
pensar nisso usando como exemplo os “rolezinhos” que, nos últimos dias, tem
atormentado a vida de lojistas, governo e “intelectuais de facebook”.
“Isso
é culpa do funk ostentação”, “a Constituição garante o direito a manifestação”,
“os rolezeiros invadiram os shoppings”, “o poder público tem que criar praças
para estes jovens”, “a ação da polícia foi um ato de discriminação,
preconceito, racismo”, “é função do Estado defender da propriedade privada”, “qual
o interesse político nesses rolezinhos?”, “não há outros lugares para estes
jovens se reunir?”, estas e muitas outras respostas, perguntas e opiniões
circularam na mídia e nas redes sociais sobre este assunto. E ai cabe
perguntar: o que significam estas respostas? Será que estamos fazendo as
perguntas certas? Não teriam algumas questões anteriores que deveriam ser
ventiladas?
Poderíamos
assumir o papel do filósofo Sócrates, que causou muito incômodo na Grécia
Antiga ao questionar os fundamentos das opiniões dos seus contemporâneos e
perguntar: O que é democracia? Será que vivemos em uma democracia? Por que o
Estado intervém na defesa da propriedade privada? Qual a diferença entre
discriminação, preconceito e racismo? Qual o papel do consumo na conservação do
nosso sistema político?
Algumas destas questões são tratadas pela Teoria Política, uma área da Filosofia Prática, que também contempla a Ética. Carlos Nelson Coutinho ajuda a explicar o que é Teoria Política ou Filosofia Política se apoiando em Gramsci (um pensador italiano do início do século XX) em sua distinção entre “grande política” e “pequena política”
“Gramsci, em suas reflexões de teoria política, fez uma importante
distinção entre ‘grande política’ (alta política) e ‘pequena política’
(política do dia a dia, política parlamentar, de corredor, de intrigas). Essa
distinção, segundo ele, baseia-se no fato de que ‘a grande política compreende
as questões ligadas à fundação de novos Estados, à luta pela destruição, pela
defesa, pela conservação de determinadas estruturas orgânicas econômico-sociais.
A pequena política compreende as questões parciais e cotidianas que se
apresentam no interior de uma estrutura já estabelecida em decorrência de lutas
pela predominância entre as diversas frações de uma mesma classe política.”
(Coutinho, 2011, p. 10).
A Teoria Política trata da “grande política”, de questões que estão fincadas nos fundamentos da política, nas Teorias Sociais. Já a “pequena política” é objeto de estudo da Ciência Política, sendo esta uma área das Ciências Sociais, como a Sociologia e a Antropologia, e que faz parte da fragmentação do saber presente desde o século XIX, que coloca cada fato, fenômeno, pensamento dentro de suas respectivas caixinhas.
Por sua vez, a Teoria Política segue o processo inverso, liga os fenômenos políticos à totalidade social, amplia as questões procurando enxergá-las de forma ampla, aberta, relacionando-as com o todo. Não se prende nas análises de um fato isolado, da conjuntura imediata. As questões políticas do nosso dia a dia, como eleições, queima de ônibus, violência policial, rolezinhos, entre outras, estão relacionadas a algo que vai muito além delas, cabe aos interessados em Teria Político pensar além destes limites.
A Teoria Política pode não nos dar a Questão Fundamental do Guia do mochileiro das galáxias, mas, com certeza, nos ajuda a enxergar melhor a realidade como ela é, de forma crítica, a por em dúvida opiniões apressadas e a formular melhores perguntas sobre a vida, o universo e tudo o mais.
H. CALEFFI
Bibliografia consultada e sugerida:
ADAMS,
Douglas. O guia do mochileiro das
galáxias. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.
COUTINHO,
Carlos Nelson. De Rosseau a Gramsci:
ensaios de teoria política. São Paulo: Boitempo, 2011.


O que esse memorável livro me ensinou foi que, o que move o mundo não são as respostas mas sim as perguntas, ótimo texto.
ResponderExcluirPS: Sempre lembre onde sua toalha está e suas utilidades também foram ótimos ensinamentos, mas isso não vem ao caso, eu acho hehe
Boa Cantino!
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